Madonnari – Uma Lembrança de Firenze

Já perdi as contas de quantos desenhos eu vi no asfalto da Via di Calimala, a rua mais antiga de Firenze. São verdadeiras obras primas em grandes dimensões! E pensar que todos os dias à noite o desenho é apagado pelas máquina de limpeza… Numa tarde quente de domingo, passo pela centésima vez diante dos madonnari, e resolvo parar para conversar com um deles e entender melhor a história dos “pintores de asfalto”
Claudio Sgobino

Que sorte a minha! Conheci justamente o fundador do associação! 🙂 Claudio Sgobino é um tipo particular… Se declara anarquista já pra começar a conversa, mas logo em seguida acrescenta: “Eu não respeito o uniforme, mas respeito a pessoa. Se você me respeita eu te respeito.” Seu corpo mostra o desgaste dos anos de trabalho como madonnari que lhe trouxe complicações nas costas e joelhos devido à incômoda posição de trabalho.

Matteo realiza Dama com Arminho de Leonardo da Vinci, 1488

Foi conversando com Claudio que descobri o nome correto de chamá-los: madonnari. Por que Madonnari? Sim, essa também foi a minha primeira pergunta à ele… Desde o fim do século XII, ainda na Idade Média, importantes instituições chamadas de Arte começaram a surgir. A função era muito semelhante aos sindicatos de hoje. Os pintores deviam se inscrever na Arte dos Médicos e Boticários, pois era através da química que obtinham as cores das tintas com que trabalhavam. O brasão desta arte era a Madonna della Rosa, motivo pelo qual tais pintores começaram a ser chamados de madonnari

Quando Claudio fundou a associação em nos anos 1993 resolveu retomar o apelido dos antigos mestres do desenho. A missão é de preservar e promover esta atividade. Hoje os madonnari de Firenze são cerca de 16 sendo que somente 5 são fiorentinos. “Recebemos muitos pedidos de estudantes estrangeiros da Academia de Belas Artes em participar da associação”, me conta Claudio, e essa foi a brecha pra pergunta…
– E como se faz pra participar?
– Precisa mostrar dois desenhos de grande formato. Se você se mostrar hábil, será aprovado para participar. Um dos desenhos deve permanecer no arquivo da associação. O seu ganho é a oferta dada pelos passantes.

As pinturas são feitas com pastel

Uma coisa que me deixou chocada, foi saber que por muitos anos a associação teve que pagar uma taxa de ocupação do solo publico à prefeitura de Firenze. Claudio me contou diversos problemas que já tiveram com o governo, uma delas inclusive foi resolvida com o apoio dos fiorentinos que promoveram um abaixo assinado para que eles não fossem proibidos de continuar com sua atividade. Dai descobrimos que na Itália também acontecem esses absurdos inexplicáveis…

Espero que este lindo trabalho continue ainda por muitos anos e que um dia eles recebam o apoio devido da Prefeitura! Firenze é a cidade da arte!

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