Museu del Bargello – O que você não pode deixar de ver

Diante dos internacionalmente famosos Uffizi e Accademia, o Museo del Bargello pode ficar em segundo plano no seu itinerário turistico por Firenze. A primeira vez que visitei este museu, foi uma grande surpresa ver quantas obras importantes ele abriga e achei que seria “injusto” esta preciosidade artística permanecer escondida de nós brasileiros! Assim, resolvi escrever este artigo destacando as principais obras que você não deve deixar de ver!

Mas antes, uma breve apresentação…

O Palácio do Bargello, construído em época Medieval (1255), foi o primeiro edifício público de Firenze, antes mesmo do Palazzo Vecchio! Era a sede no Capitão do Povo e do Conselho, ou seja, tinha função judiciária. Depois passou a ser sede do Podestà, com função administrativa, e a testemunha desta ocupação são os diversos brasões dos Podestà que ali passaram, que caracterizam as paredes da linda corte interna do palácio. Durante 1500 e pelos 3 séculos seguintes é a Sede do Bargello, ou seja, o capitão da guarda, e o palácio é transformado em uma prisão, danificando a sua arquitetura e muitos afrescos do seu interno. Na segunda metade de 1800 a prisão é transferida e há um grande trabalho de restauro para transformá-lo em Museu Nacional. No ano de 1865, quando Firenze vira a capital da Itália e em comemoração aos 600 anos de nascimento de Dante Alighieri, o Museo del Bargello abre suas portas ao público. Hoje é considerado um dos maiores museus de Artes Aplicadas e de esculturas renascentistas do mundo.

 

Começamos nossa visita pelas obras da Pátio Interno:

Estátua de Cosimo I de Medici

É interessante observar nesta obra a influência da Antiguidade sobre o Renascimento. Cosimo I é o grão duque de Firenze que viveu em 1500, no entanto é representado pelo artista Vicenzo Dante com vestes de um imperador romano, mais precisamente, de Augusto.

Cosimo I de Medici nas vestes de Augusto – Vicenzo Danti (1568-72)

Fonte da Sala Grande

Este conjunto de estátuas formando uma fonte foi encomendado por Cosimo I à Ammannati para ser instalada no Salone del 500′ do Palazzo Vecchio. As figuras representam divindades gregas que contam a origem da água e os demais elementos. Ela nunca foi instalada na sua posição original, mas já foi posicionada nos jardins de Pratolino e Boboli antes de chegar ao Bargello.

Fontana di Sala Grande, Bartolomeo Ammannati (1556-61)
Continuamos a visita subindo as escadas até o primeiro andar onde há uma loggia com estátuas em mármore e bronze, estilo maneirista, de Giambologna e entramos à direita na Sala di Donatello.

“Os Davis”

Se você já foi ver o David de Michelangelo exposto na Accademia (o original) ou em frente ao Palazzo Vecchio (copia) será interessante fazer uma comparação de estilos e representações entre Michelangelo e as versões precedentes de Donatello e Verrocchio expostos nesta sala.

O primeiro David de Donatello, feito em mármore, tem ainda influência do estilo tardo-gótico; observe a postura alongada, a cabeça pequena, olhar inexpressivo.

David de Donatello (1439-43) – David de Donatello (1408) ; David de Verrocchio (1468-69)

O segundo David de Donatello é feito em bronze, considerada a primeira obra renascentista completamente desvinculada da arquitetura e o primeiro nu renascentista. É uma obra ambígua em vários sentidos. Primeiro por ter traços físicos delicados, quase femininos (como o ventre redondo), segundo por ter sido considerado por muitos uma representação de Mercúrio, um deus grego da mitologia e não um personagem bíblico.

O terceiro David é obra de Verrocchio, feito em bronze. Seguindo o gosto estilístico da década de 70 de 1400, o David é representado na figura de um menino com vestes muito bem detalhadas, com expressão de satisfação por ter conseguido derrotar o inimigo Golias.
Seguindo a ordem cronológica, o próximo David é o de Michelangelo. Além da óbvia diferença física entre o David de Michelangelo (homem) e seus precedentes (meninos), outra inovação de Michelangelo é de representar o herói bíblico no momento antes de derrotar Golias, e não depois com sua testa aos pés.

A Porta do Batistério de Firenze

Em 1401 houve um evento que marcou o início do Renascimento: o concurso para a porta norte do Batistério de Firenze. Entre os participantes do concurso, estão Lorenzo Ghiberti e Filippo Brunelleschi. Nesta sala estão expostos os únicos painéis originais do concurso que chegaram aos dias de hoje. Eles representam um mesmo tema, o sacrifício de Isaac. Observando-os lado a lado é possível identificar o gosto tardo-gótico de Ghiberti e a orientação classicista de Bruneleschi.

Esquerda: painel de Ghiberti – direita: painel de Brunelleschi

San Giorgio di Donatello

No centro da parede ao fundo da sala, encontra-se a estátua se São Jorge que segura seu escudo, dentro de um nicho emoldurado. Esta estátua estava originalmente no exterior da Igreja de Orsanmichele. É importante pois mostra o início da produção escultórica renascentista, e principalmente a introdução de uma nova técnica desenvolvida por Donatello: o stiacciato, ou seja, um baixíssimo relevo que não perdia a qualidade representativa de uma cena, pois nesta época havia sido descoberta a perspectiva linear.

San Giorgio, Donatello (1415-17) – original no Bargello e cópia na fachada de Orsanmichele
Detalhe do stiacciato abaixo da estátua

O percurso do museu de segue com a Coleção Islâmica (tapeçarias, jóias, majólicas, armas…), Sala degli Avori (com objetos vários doados pelo colecionista francês Carrand), onde ao fundo se encontra a Capela de Maria Madalena com afrescos atribuídos a Giotto, um crucifixo atribuído a Michelangelo. A última sala do primeiro andar é a Sala delle Maioliche, com objetos em terracota envidraçada provenientes da Itália e não.

Crucifixo, atribuído à Michelangelo (1495)
Sala degli Avori

No segundo andar temos diversas obras da família della Robbia, que no início de 1400 aperfeiçoou a técnica da terracotta envidraçada e inovou utilizando-a na escultura. São peças lindas e de grande valor artístico. Vale a pena uma passada.

Sala Giovanni della Robbia
Sala das Maiolicas

Voltamos ao térreo para ver o grand-finale: a Sala de Michelangelo.

Bacco de Michelangelo

É a primeira escultura a tutto tondo (ou seja, esculpida em 360° e desvinculada da arquitetura) esculpida por Michelangelo quando ele havia somente 22 anos e um dos poucos exemplos de personagem mitológico realizado por ele. Incrível a representação de Michelangelo que mostra o Deus do Vinho quase perdendo o equilíbrio, com uma expressão divertida e olhar desfocado.

Il Bacco di Michelangello (1496-97)

Tondo Pitti 

Considerada uma obra incompleta de Michelangelo que representa a Madonna con il Bambino e San Giovannino. Interessante pela composição das imagens que extrapola os limites do substrato mostrando uma liberdade das formas impostas pelo Renascimento e a direção ao estilo seguinte, o Maneirismo.

Tondo Pitti, Michelangelo (1503-04)

Base de Perseus

O original do exposto sobre a Loggia dei Lanzi na Piazza della Signoria. Em cada lado da base é representado os seus meio-irmãos Mercúrio e Minerva que ajudaram Perseu a vencer a Medusa, e seus pais Danae e Jupter. As estátuas de bronze da base e o Perseu com a cabeça de Medusa são obras de Benvenuto Cellini.

Mercurio (Hermes), Minerva (Atena), Júpiter (Zeus) e Danae com o pequeno Perseu

 

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2 comentários

  1. Grazie mille, Marcelinha! <3 O artigo ficou cumprido, mas falei tudo o mais resumidamente possível! 😉 Baci